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Na vida há duas opções: indignar-se ou resignar-se.

sábado, 31 de março de 2012

Maçonaria Preconceituosa



Quando se fala a respeito de portadores de necessidades especiais, na maioria das pessoas logo vem no coração um sentimento de compaixão e de altruísmo exacerbados. Sim, exagerados ao ponto de ser nutrido um dó, uma pena, um lamento descomedido, como se aquele indivíduo que não possui todas as atribuições físicas de um homem comum fosse um pobre desvalido e incapaz, diferente na maioria das competências e sem poder nem liberdade de usufruir o mesmo que é vivido por seus iguais de espécie. Muitos de nós pensamos estar agindo lindamente e cheios de caridade tendo este comportamento. Alguns, inclusive, nem mesmo sabem que mal estão cometendo.


Sou profissional da cultura e, por necessidade social, da educação. Sempre trabalhei com portadores de necessidades especiais, tanto físicas quanto mentais, tendo o prazer de conhecer um pouco mais a respeito de cada tipologia desta área. Esta segunda categoria (se assim temos o direito de classificar), é composta por aqueles que possuem insuficiência, falta, falha, carência de cognição intelectual, que por si só definem e caracterizam em parte um conjunto de problemas que ocorrem no cérebro humano. Em psiquiatria também são descritos como oligofrenias e retardo mental. É difícil lidar com mentes que pululam e que entendem o mundo ao seu redor sob uma ótica extremamente diferenciada de muitos que se dizem sãos. Torna-se complicadíssimo encontrarmos nossa própria identidade. Já diria Erasmo de Rotterdam (o escritor do Elogio da Loucura), que “a pior loucura é ser sábio num mundo de loucos”. Porém é possível que estes se socializem e ensinem a sua forma de compreensão àqueles que se dizem donos da verdade. Mas, cuidado! Não cometamos o pecado da estupidez, que por muitas vezes se confunde com os sintomas da loucura. É uma linha muito tênue que divide uma faculdade da outra, mas isso é assunto para outra discussão. 

Já os que não possuem atribuições físicas completas, estes merecem uma forma diferenciada de atenção. Ou melhor, uma forma anivelada de tratamento seria muito mais recomendável. Quem foi que disse que quem não tem uma perna, um braço ou não consegue se movimentar como um ser humano pleno de sua saúde física não tem capacidade de entender ou de absorver ensinamentos, conhecimentos do cotidiano ou assuntos de ordem intelectual, por mais complexa que seja? Onde está escrito que não possuir um movimento adequado do corpo físico é sinônimo de estupidez? 

Na Maçonaria está escrito. O Landmark XVIII contido na constituição de Anderson e tão afamado entre os maçons do orbe, diz com severidade: 

“XVIII - Por este Landmark, os cadidatos à Iniciação devem ser isentos de defeitos ou mutilações, livres de nascimento e maiores. Uma mulher, um aleijado ou um escravo não podem ingressar na Fraternidade.” 

Por muitas vezes, os Carbonários, e também outros Irmãos com discernimento mais adequado, discorrem contrariamente aos absurdos argumentos desta constituição monarquista e enraizada na oligarquia real, tirana e corrupta. Muitos ainda a elevam ao patamar de verdades imutáveis e inquestionáveis, quase como mandamentos sagrados e intocáveis. 

Seria tão complicado assim enxergar nesta proibição da participação das mulheres na Maçonaria uma forma de afirmar poder e soberba, recheada com uma boa quantia de preconceito e discriminação? Neste mesmo Landmark, para adornar com ainda mais ignorância esta prerrogativa, a proibição de serem iniciados “defeituosos” e “mutilados”. É possível concordar com algo tão agressivo assim? 

Pois bem, tentemos enxergar com os olhos da sabedoria, da qual nos propomos sermos fiéis seguidores. Entendemos que a Maçonaria tem primazia por seguir com rigor suas tradições e costumes, nos mínimos detalhes. Porém, ainda assim muitos de seus ditos obreiros cometem besteiras atrás de besteiras, prostituindo sua Ordem das mais diferentes formas. Falam de seus trabalhos sagrados escancaradamente, revelam sua condição para qualquer pessoa só para obter uma falsa ilusão de status e até mesmo financiam o tráfico de drogas e desrespeitam seus próprios Irmãos com ofensas indizíveis. Por mais que os obreiros do lado do “bem” se esforcem para manter estas tradições, é difícil entender o porquê destes homens livres e de bons costumes não serem livres o suficiente para exercitar sua dúvida e por conseguinte sua busca da verdade. É muito mais fácil manter o Landmark XVIII intacto e imutável, afinal, é agradabilíssimo ao ego alimentar sua sobrepujança e seu senso de poder, tanto sob o sexo feminino, dito sensível e menor, quanto sob os “mutilados”, que não tem competência física para serem iguais, segundo este modo de pensar. 

Sinais, toques, palavras e marchas são gestos físicos que exacerbam a compreensão do mundo simbólico. Nisto estamos todos de acordo. Mas a absorção do sentido, da poesia e da mensagem de um símbolo não é fruto da reflexão e do discernimento adequado do indivíduo? Um cego, um mudo, um surdo ou um deficiente físico seria ainda considerado um retardado ou um idiota, incapaz de compreender a metáfora contida na simbólica maçônica? 

Encerro minha reflexão com as seguintes perguntas: seria mais válido um obreiro perfeito fisicamente e com um coração incapaz de se fazer maçom ou um portador de necessidades físicas especiais que entenda e pratique de forma plena os ensinamentos da ordem? Beethoven, maçom e completamente surdo no final da vida (mas que ainda compôs a Nona Sinfonia nesta condição) deveria então ser considerado um profano e incapaz por sua mutilação? 

Conheço e conheci muitos maçons de coração e mente mutilada e que ainda pensam que viram a Luz.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Taxa de Conveniência?

Nunca é demais ficar atento. 

Quando liguei para o número disponível para informações do Festival de Curitiba (teatro), um dos maiores eventos da área na América Latina, não conseguiram me informar com eficácia do porque de uma tal "taxa de conveniência" cobrada em ingressos que são comprados por metade do valor.
Acontece que essa taxa é de R$3,00. Portanto, para um espetáculo do evento que custe R$10,00, o meio ingresso fica R$8,00. Estranho, não? Que meia entrada é essa? Seria uma atitude legal?

Sem encontrar o porque disso, sugeri que a mídia desse atenção ao caso.
A Rádio CBN Curitiba atendeu em menos de duas horas a minha sugestão de pauta.
Ainda não entendi alguns pontos. Interpretem como acharem melhor. Acessem o link abaixo enviado pela rádio:



Em 30 de março de 2012 13:46, Pauta <pauta@cbncuritiba.com.br> escreveu:

Caro,
Fizemos uma entrevista sobre este assunto. Segue o link:


CBN Curitiba 

segunda-feira, 19 de março de 2012

"Traidor da Constituição é Traidor da Pátria"

A respeito do vídeo acima, esta é a posição de um grandíssimo irmão e amigo, Magnon de Oliveira Almeida, do qual já tive a honra de postar suas observações em outras ocasiões neste blog.

Diante tantos exemplos de falta de moral, tanto nos convívios pessoais como em nossas pessoas publicas, discursos vazios, atitudes igualmente vazias, ou pior, cheias de interesses egoístas e inescrupulosos, deparei-me com o vídeo do discurso do Deputado Ulysses Guimarães na promulgação da constituição de 1988. Constituição que ainda faz parte de um vasto debate. Se serviu de tapa buraco ou se realmente foi uma tentativa de melhoras, de qualquer modo, o que me atentou, foram as palavras do Deputado. Citações como: “Amaldiçoamos a tirania onde quer que ela desgraçe homens e nações principalmente na América latina.”, ou “A moral é o cerne da pátria. A corrupção é o cupim da República. República suja pela corrupção impune tomba na mão de demagogos que a pretexto de salvá-la a tiranizam. Não roubar, não deixar roubar, por na cadeia quem roube: eis o primeiro mandamento da moral pública.”, e pus-me a pensar: por que não ouvimos mais palavras tão fortes e inspiradoras? Ouvimos facilmente discursos de posse fartados de demagogias hipócritas de presidentes de história duvidosa, políticos que pedem abertamente para esquecermos eventos irregulares maquiagens parafraseadas em promiscuidades enaltecendo falsos heróis em mídia aberta. O que acontece?
Onde foi parar o patriotismo, ou ainda onde foram parar esses políticos que aplaudiam de pé, ou era uma farsa? Havia outros interesses sombrios em tudo isso? Seria eu tão ingênuo de acreditar nessas palavras, e descrente sem motivos nas palavras contemporâneas?
Não acredito. Os tempos estão passando, e acredito que isso faça parte de uma doença social que nos assola: A geração do egotismo.
 Descrença, pois sem crenças religiosas ou de fé, só há o “eu”. Sem crenças em ética, pois esse “eu” não se importa se seus costumes atingem a outros ou não, e por isso também sem moral.
Comodismo, apenas posições cômodas e de interesse próprio são tomadas. Fala-se tanto em acabar com a corrupção e em salvar o mundo para suprir a falta de ação em fazê-los.
Muitos visam o “Eu” esquecendo o “Eu” total: “Nós”! Qualquer peça é parte de um todo.

Quando nada víamos caminhávamos sozinhos na floresta?

γνῶθι σεαυτόν (Conhece-te a ti mesmo).



Minha resposta:

Salute e Fratellanza, fratello!

Também senti no peito o mesmo fervor patriótico que proliferastes.
Este fervor, como bem dissestes, é incitado por um discurso tão cheio de significado como este de Ulisses Guimarães. A propósito, uma figura tão proeminente em nossa política e ainda poucos o tomam como pedra basilar da redemocratização dos direitos e deveres e da oposição à ditadura.
Lembro-me, quando nos meus tenros 6 anos de idade, morando no interior paulista, nossa cidadezinha minúscula, Maracaí, na época recebeu a ilustre visita de Ulisses por motivos políticos que não me recordo. O que me marcou de forma inesquecível foi que meu pai, destacado comerciante e de reputação ilibada na região, foi responsável por acompanhá-lo por parte de sua visita à cidade. Como um bom pai, na vontade de plantar desde cedo a noção de justiça e honestidade no filho, levou-me junto nesta empreitada. Conheci, portanto, Ulisses Guimarães, que me cumprimentou com carinho e presença de espírito. Não tinha idade o suficiente, obviamente, para me recordar de feitos políticos que tal personagem havia executado, e muito menos noção para avaliá-los. Porém, sabia que era uma pessoa importante e digna de merecimento, pois meu pai, meu herói, o tinha por grande estima.
O que quero dizer com tudo isso é que por algum motivo sabia que as pessoas, ao menos na cidadezinha que eu me criei, encaravam aquela personalidade com um respeito incomparável, e sabia de alguma forma que não era por pouca coisa.
Revendo este discurso repleto de sentimento e de verdades, reascende no "peito a esperança de um triumpho próximo", a certeza de que "juntos, pelejaremos no mesmo campo" e que ouviremos em breve o "sino da redempção". Utopia? Quem sabe seja, porém, é impossível não ser tocado por conceitos de impacto como "traidor da Constituição é traidor da pátria!". É impossível não acreditar que este mundo, talvez de sonhos, não possa um dia ser real.
Suas observações demonstram bem, meu caro, que por muitas vezes deixamos de acreditar em nossa política, em nossos governantes e em nossa democracia por motivos óbvios e escancarados, porém, cabe a nós, de algum jeito, incitar novamente o conceito de justiça para todos, seja através de nossas palavras, seja através de nossas ações. 
Precisamos reaprender a observar as coisas à nossa volta como crianças na tenra idade e nos deixar levar pela bondade e pelo amor, porém, usando a sabedoria já adquirida com equilíbrio e exatidão, sem jamais perder a severidade e força nos punhos.

Triple Abbraccio
Rogério Bealpino.´.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Os ídolos do povo


Esta foi uma troca de e-mail que tive com um grandíssimo amigo, Marcos Dadam.

Marcos: 
Fala, camarada. Sei que não devia estragar seu dia já de manhã, mas já são quase 11:30, então vamos lá. Estava na minha casa, sossegado comendo meu pão chiado na frigideira com meu delicioso café preto, qdo minha mãe chega indignada e diz: "sabe quanto o jogador Neymar ganha? 3 MILHÕES por mês!!!" Rogeba, ninguém nesse planeta merece ganhar isso, imagine um sujeito desses que nada faz pra melhorar o mundo!!!! Enfim, falei........Desculpe mas precisava desabafar.......

Rogério: 
Meu velho,

Por coincidência, estava também tomando café com minha mãe quando vi aqueles comentários idiotas sobre futebol (que toma mais da metade de qualquer noticiário da TV), e falei com a velhinha justamente sobre esse tipo de alienação mentirosa pela qual as pessoas escolhem ser submetidas. Comentei, inclusive, que esse bando de marginais (que é ao que se resume a maioria destes jogadores) são na maioria analfabetos, mal terminaram a oitava série, nunca pegaram um livro na vida e ainda por cima são idolatrados por chutar uma bola. Fica bem claro que minha revolta não é contra o esporte, necessário para a formação e para o desenvolvimento do senso de cidadania, mas contra seus chamados esportistas (os que servem a carapuça, é claro) e a máfia do futebol. Para estragar um pouco mais o nosso dia, sem muito trabalho me lembrei de mais três camaradas que nada fizeram de útil ao nosso país:

- Adriano (Corinthians): por seus milhares de fãs é apelidado de IMPERADOR (por causa do nome), e com certeza nem sabe quem foi aquele que entre 117 e 138 d.C. foi o responsável pela construção do Panteão de Roma, considerado um dos chamados "cinco bons imperadores" e um grande admirador da cultura grega, sendo um dos responsáveis pela propagação do helenismo no mundo antigo. Já o "monarca" brasileiro nada mais imperou senão sob sua corja de protegidos (traficantes de facções criminosas do Rio de Janeiro que já posaram em fotos explícitas do jogador com metralhadoras nas mãos) além de protagonizar escândalos com prostitutas e piriguetes, envolvendo até tiros no meio da história. O tal idolatrado por seus plebeus ganha em média R$550.000,00 do clube, sem contar campanhas publicitárias e outros. O narcotráfico agradece.

- Ronaldinho Gaúcho (Flamengo): condecorado com a medalha Machado de Assis pela Academia Brasileira de Letras, a máxima honraria concedida a seus imortais acadêmicos. Perguntado sobre quando havia lido o último livro, não soube responder. Famoso, inclusive, por desrespeitar os moradores do seu condomínio com as festas de arromba que dá, o camarada conta com o pomposo 1 milhão por mês (e mais) em sua conta.

- Vagner Love (Flamengo): Além de já ter aparecido transando com uma estrela pornô em vídeos na internet, foi flagrado sendo escoltado por traficantes na favela da Rocinha em baile funk. Sua mulher enfrenta sérios problemas com a justiça por negligenciar direitos trabalhistas de uma ex-empregada. Salário do jogador: em torno dos R$400.000,00 mensais.

Tem muito mais gente faltando nessa lista, mas vamos parar por aqui. Estes aí já dão um bom panorama do gosto e do senso de justiça dos nossos conterrâneos tupiniquins. 
Ah, sim, e sem contar a violência que isso tudo reflete. Lembra da briga de ônibus daquele bando de bandidos, torcedores fanáticos, que a gente se meteu (voltando da faculdade, mortos de cansaço) e que te deixou manco pelo ano inteiro por causa da cirurgia?

Reflexo dos milionários imperadores e imortais de academias brasileiras.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Guerra do Contestado? Não, sei não...

              

                Já ouviu falar na tal Guerra do Contestado? Ah, talvez sim, num livrinho ou outro da escola (há muito tempo), ou mais recentemente naquele estudo mequetrefe para o vestibular ou para o concurso que provavelmente você não passou. Bom, se você leu sobre o assunto com mais afinco, parabéns, faz parte de uma porcentagem quase invisível dos brasileiros. Mas se precisa refrescar a memória um pouquinho, talvez eu possa ajudar.
                Entre Santa Catarina e Paraná houve uma terra-sem-dono que teve sua posse contestada desde o período colonial. Um baita auê foi armado em diversas ocasiões para decidir quem mandava no que. Até a Argentina, em certo tempo, se meteu na história. Águas rolaram até o início do século XX, quando o governo trouxe ao país os gringos para explorarem terras tupiniquins. A norte-americana Southern Brazil Lumber Colonization, uma empresa subsidiária da Brazil Railway Company teve aval para a construção de uma estrada de ferro que ligaria o Sul ao resto do país, e, de lambuja, iria extrair madeira e erva-mate de 15km de cada lado dos trilhos. Mas e na região, não morava ninguém? Só pato selvagem e jaguatirica? É, bicho e mata tinha bastante, mas longe da selvageria com que eram tratados, havia uma população bastante simples formada de alguns imigrantes, outros refugiados de conflitos passados como a Revolução Federalista e, alguns mais velhos, da Farroupilha. Agricultores e trabalhadores rurais, na maioria analfabetos e com uma fé mística, misturada com as tradições católicas, tinham como referência um tal monge, o João Maria, que já tinha sido "interpretado" por outros que vagaram na região. O camarada pregava, dava conselhos, curava com ervas medicinais e incitava o povo com idéias não muito agradáveis ao governo. Mas, aqueles pobrezinhos eram simplesmente caboclos, não eram considerados gente.
                Eis então que por um conluio, a Brazil Railway meteu bala nessa povoação da beira dos trilhos afirmando que aquelas terras agora tinham dono. Foram oportunistas, já que nem Paraná nem Santa Catarina davam muita atenção a estes aí, pois nem mesmo os limites territoriais eram definidos entre um Estado e outro. Mas a caboclada não deixou barato. Incitados pelo monge e cansados do esquecimento, organizaram uma revolta contra os capangas da empresa e também contra as tropas do governo, que pretendia defender a região. E não é que, quando o Paraná mandou o coronel João Gualberto e sua tropa para acalmar de vez os ânimos dos revoltosos acabou trazendo o militar de volta para casa num caixão?! Morreu gente pra caramba nessa primeira batalha, tanto os caboclos, com suas espadas de madeira e pouquíssima arma de fogo, quanto soldados que marcharam mal preparados, pensando encontrar gente fraca e sem determinação. O João Maria também morreu, mas deixou sua herança: a promessa de ressuscitar para comandar o seu povo. O monge não era fraco: tinha doze cavaleiros que o acompanhavam, chamados de Os Doze Pares de França, igualzinho ao Carlos Magno. E voltaria depois da morte junto de outros, o Exército Encantado de São Sebastião. Em vida, para liderar, dizia necessário ter três virgens santas ao seu redor para estar rodeado de pureza e serenidade. Dentre estas, estava minha avozinha querida, Teodora Alves Ferreira, que Deus a tenha! Meu bisavô era esperto. Tomou partido na guerra e auxiliou o monge a reunir as famílias contra os peludos (como eram chamados os soldados das tropas) e o Dragão de Fogo, o trem.
Depois da morte do monge, o bisa deu um jeito de enfiar na cabeça da menina que ela precisaria receber as “visagens” do falecido. E ela recebeu. Dizia que João Maria pedia para a caboclada não cair por terra, continuar a guerra e criar novos redutos. Depois de velha, vovó contava que não recebia visagem não, que era o bisa que a mandava fazer aquilo. De algum jeito tinha que se convencer a caboclada a continuar, ora pois! Depois da cidade de Irani, onde ocorreu a primeira batalha, o bicho pegou. Então a tropas do governo caíram matando literalmente. Os rebeldes chegaram a criar um código de conduta próprio, independente, ao seu modo, é claro. Se eram esquecidos por todos e tidos como bandidos baderneiros, então fariam as coisas do seu jeito. Porém, a luta foi grande, muitos episódios ocorreram, chegaram até a se desorganizar e esquecer o principal objetivo de lutar pelo justo para todos. Não demorou até que a Guerra tivesse fim em 1916 com a prisão de Adeodato, um dos últimos líderes da revolução.
Foram quatro anos de batalhas sangrentas num evento tão importante (senão mais) quanto o de Canudos, do Antônio Conselheiro. Tudo isso apenas porque habitantes de uma determinada região pediam maior atenção por serem esquecidos e maltratados por seu próprio país. Gente considerada perigosa e arruaceira, mas que nada mais carregava no peito do que o sentimento de justiça e de esperança de melhorias. Hoje a região (que teve seu limite territorial acertado) ainda é tão esquecida quanto no período da Guerra. Cidades pobres, estradas péssimas, má infraestrutura, saúde e educação precárias e um povo sem identidade e que foi obrigado a esquecer deste evento do início do século XX por sentir vergonha do desprezo do país. Para erguer a moral do exército, supostos heróis que lutaram pela nação contra um mal inventado, como o primeiro-tenente Ricardo Kirk (que foi o primeiro militar a usar o avião numa operação de guerra) e também o tal coronel morto João Gualberto, hoje tem seus nomes eternizados em ruas, centros militares e escolas especializadas. E os heróis do povo, que morreram injustamente apenas por defenderem seus direitos e seus anseios, esquecidos nas trevas da ignorância, e que não foram nada anônimos?
Minha família mal é mencionada em livros de história. Aqueles que dominam sempre vencem também com suas versões, que são as únicas a serem ouvidas.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Os deuses mais adorados pela humanidade

  No Olimpo dos deuses contemporâneos, a Hipocrisia é filha bastarda da Ignorância que se casou com a Prepotência. Bastarda porque ela é filha legítima da Ignorância que teve um caso rápido com o Orgulho, mas este último, arrogante demais, não quis saber da sem graça da coitada, que só falava asneira e preferia ficar assistindo Big Brother ao invés de elogiá-lo incessantemente para enaltecer o seu ego.  Mas o Orgulho fez uma filha na pobrezinha (no intervalo da novela) a já referida Hipocrisia, e, como a mãe não sabia criar a menina sozinha, se juntou à Prepotência, uma baita de uma mulher-macho, ativista de carteirinha, que queria uma esposinha bem submissa pra sentar a borduna quando bem entendesse.
A tal Hipocrisia cresceu, portanto, num ambiente de extrema miséria e desprezo. Ouvindo funk e Michel Teló, quase se matou de overdose numa festinha com seus amigos drogaditos. Sua mãe a amava muito, mas seu pai (ou segunda mãe, sei lá como se poderia chamar) a influenciou com sua soberba. A menininha carregou em seu gene os resquícios do seu verdadeiro pai, o Orgulho. Nunca foi tão obediente. Começou tirando fotografia com biquinho e postando no Facebook. Enveredou para o caminho da promiscuidade rapidinho. Sempre preferiu ser laureada com a fama e jamais deixou de ser companheira de uma priminha safadinha e atirada, a Luxúria. Quando cresceu, percebeu que pela humanidade ela era muito lembrada: falsos profetas, puritanos, políticos, bajuladores de reis, membros de algumas sociedades secretas, moralistas e rebeldes sem causa levantaram falsos ídolos em seu nome e construíram verdadeiros santuários para louvá-la. A mãe estúpida, a Ignorância, nunca entendeu do porque desta fama toda. Sempre quis que a garota fosse modelo. Já a Prepotência, por mais que não desse muita atenção a uma filha que não era do seu sangue, começou a enxergar com outros olhos a ascensão social da tal agregada. E, não por menos, se aproveitou da situação e falou aos povos terrestres também em nome da menina.
O mundo girou muitas vezes e a Prepotência nunca foi citada em separado da sua filha Hipocrisia. Cada vez que um idiota insiste em falar pelos cotovelos, é inspirado por estas duas divindades. O possuído blasfema, se contradiz, tem sintomas bipolares e jamais encontra a Razão, considerada um demônio para ele a ponto de ser exorcizado.
A Hipocrisia, já ia me esquecendo, teve uma filhinha com seu padrasto. Nesta relação quase incestuosa, nasceu a Mentira, uma linda garotinha mimada que tem a cara do pai e as fuças da mãe. Os pais sempre a levam para passear nas igrejas-empresas espalhadas pelo mundo, mas o lugar que ela mais se sente bem é no Palácio do Planalto. Adora brincar com os bigodes engraxados do seu padrinho semideus, José Sarney. Desde muito cedo induz os adeptos da mamãe a criarem falsas vidas para si mesmos e para os outros. 
Ah, que menininha travessa...

domingo, 8 de janeiro de 2012

O Homem e sua Natureza

            

              O tema homem e natureza já é algo tão desgastado de se comentar que qualquer observação acerca se torna quase que enfadonho. É um tal de consciência ambiental pra cá, atitudes ecologicamente corretas pra lá que ninguém dá mais tanto ouvidos para esse tipo de assunto. Porém o que quero chamar atenção nestas poucas palavras não é para o modo de agir do homem, e sim, para o modo de agir da própria natureza.
          Liberto do caos da cidade grande do qual todos já estão absurdamente habituados, estar inserido no meio primitivo que fez surgir a maioria dos seres animados e inanimados é algo de beleza sublime, quase indescritível.  Quase porque ainda é possível descrever – ainda que simploriamente – as infinitas sensações que a terra mater oferece, e gratuitamente, com um amor incondicional. Notar a primeira estrela despontar num céu ainda alaranjado é o mesmo que lembrar que somos feitos do mesmo material contido nas nebulosas, os fótons, minúsculas partículas de luz viajantes pelos universos desde que eles existem. Ouvir os animais e o vento em consonância é compreender um pouco mais a afirmação de Beethoven que dizia amar mais a uma árvore do que a um ser humano. É desta natureza, portanto que surgiram seus imortais opus e sinfonias. Observar o rio correndo incessantemente numa cadência monótona é inserir-se numa reflexão de que tudo é passageiro, nada é para sempre, nem o mau nem o bem.
                Aliás, discorrendo mais sobre o rio, um dos milagres da natureza, é de se levar em conta o êxtase da criação. Na verdade, esta criação pode muito bem ser chamada de transformação, porém, criar é mais que transformar. É dar algo de inédito à vida. E isto um rio faz o tempo todo. Ele próprio é a vida. Nestes dias observei algo que jamais tinha presenciado nesta minha existência atual: a nascente de um rio.  As águas brotando da terra, em meio a uma floresta nativa densa e explodindo da vida da qual tanto falo. Uma água pura, vinda de lençóis freáticos submersas sob as raízes de árvores e plantas talvez centenárias. O mesmo líquido que nos faz viver e que já se tornou banal entre o homo sapiens. O mesmo líquido que purifica o organismo e a alma. Beber um gole sequer daquela água era como lavar a mim próprio das impurezas que eu mesmo me contaminei.
                Enfim, não digo estas coisas para tentar conscientizar o homem de que ele deve respeitar a natureza e seus “milagres”. Há muita gente fazendo isso por aí, e sem muito êxito, inclusive. Isso porque o homem não FAZ PARTE da natureza. Ele É a natureza. Simplesmente ele se esquece disso, e só se lembrará quando precisar dela novamente. Não haverá campanhas, programas ou sistemas que o farão enxergar isso. Apenas a necessidade abrirá seus olhos. A natureza vive por si própria e não depende do homem para sobreviver. O homem a destrói sim, mas ela é muito mais forte que ele e pode aniquilá-lo quando bem entender. Enquanto isso, apenas aqueles que souberem que a madeira que racham é a própria mente sendo fendida para novos horizontes, estes sim entenderão o quanto as palavras vãs que aqui escrevo têm um fundo de verdade.