Quando se fala a respeito de portadores de necessidades especiais, na maioria das pessoas logo vem no coração um sentimento de compaixão e de altruísmo exacerbados. Sim, exagerados ao ponto de ser nutrido um dó, uma pena, um lamento descomedido, como se aquele indivíduo que não possui todas as atribuições físicas de um homem comum fosse um pobre desvalido e incapaz, diferente na maioria das competências e sem poder nem liberdade de usufruir o mesmo que é vivido por seus iguais de espécie. Muitos de nós pensamos estar agindo lindamente e cheios de caridade tendo este comportamento. Alguns, inclusive, nem mesmo sabem que mal estão cometendo.
Sou profissional da cultura e, por necessidade social, da educação. Sempre trabalhei com portadores de necessidades especiais, tanto físicas quanto mentais, tendo o prazer de conhecer um pouco mais a respeito de cada tipologia desta área. Esta segunda categoria (se assim temos o direito de classificar), é composta por aqueles que possuem insuficiência, falta, falha, carência de cognição intelectual, que por si só definem e caracterizam em parte um conjunto de problemas que ocorrem no cérebro humano. Em psiquiatria também são descritos como oligofrenias e retardo mental. É difícil lidar com mentes que pululam e que entendem o mundo ao seu redor sob uma ótica extremamente diferenciada de muitos que se dizem sãos. Torna-se complicadíssimo encontrarmos nossa própria identidade. Já diria Erasmo de Rotterdam (o escritor do Elogio da Loucura), que “a pior loucura é ser sábio num mundo de loucos”. Porém é possível que estes se socializem e ensinem a sua forma de compreensão àqueles que se dizem donos da verdade. Mas, cuidado! Não cometamos o pecado da estupidez, que por muitas vezes se confunde com os sintomas da loucura. É uma linha muito tênue que divide uma faculdade da outra, mas isso é assunto para outra discussão.
Já os que não possuem atribuições físicas completas, estes merecem uma forma diferenciada de atenção. Ou melhor, uma forma anivelada de tratamento seria muito mais recomendável. Quem foi que disse que quem não tem uma perna, um braço ou não consegue se movimentar como um ser humano pleno de sua saúde física não tem capacidade de entender ou de absorver ensinamentos, conhecimentos do cotidiano ou assuntos de ordem intelectual, por mais complexa que seja? Onde está escrito que não possuir um movimento adequado do corpo físico é sinônimo de estupidez?
Na Maçonaria está escrito. O Landmark XVIII contido na constituição de Anderson e tão afamado entre os maçons do orbe, diz com severidade:
“XVIII - Por este Landmark, os cadidatos à Iniciação devem ser isentos de defeitos ou mutilações, livres de nascimento e maiores. Uma mulher, um aleijado ou um escravo não podem ingressar na Fraternidade.”
Por muitas vezes, os Carbonários, e também outros Irmãos com discernimento mais adequado, discorrem contrariamente aos absurdos argumentos desta constituição monarquista e enraizada na oligarquia real, tirana e corrupta. Muitos ainda a elevam ao patamar de verdades imutáveis e inquestionáveis, quase como mandamentos sagrados e intocáveis.
Seria tão complicado assim enxergar nesta proibição da participação das mulheres na Maçonaria uma forma de afirmar poder e soberba, recheada com uma boa quantia de preconceito e discriminação? Neste mesmo Landmark, para adornar com ainda mais ignorância esta prerrogativa, a proibição de serem iniciados “defeituosos” e “mutilados”. É possível concordar com algo tão agressivo assim?
Pois bem, tentemos enxergar com os olhos da sabedoria, da qual nos propomos sermos fiéis seguidores. Entendemos que a Maçonaria tem primazia por seguir com rigor suas tradições e costumes, nos mínimos detalhes. Porém, ainda assim muitos de seus ditos obreiros cometem besteiras atrás de besteiras, prostituindo sua Ordem das mais diferentes formas. Falam de seus trabalhos sagrados escancaradamente, revelam sua condição para qualquer pessoa só para obter uma falsa ilusão de status e até mesmo financiam o tráfico de drogas e desrespeitam seus próprios Irmãos com ofensas indizíveis. Por mais que os obreiros do lado do “bem” se esforcem para manter estas tradições, é difícil entender o porquê destes homens livres e de bons costumes não serem livres o suficiente para exercitar sua dúvida e por conseguinte sua busca da verdade. É muito mais fácil manter o Landmark XVIII intacto e imutável, afinal, é agradabilíssimo ao ego alimentar sua sobrepujança e seu senso de poder, tanto sob o sexo feminino, dito sensível e menor, quanto sob os “mutilados”, que não tem competência física para serem iguais, segundo este modo de pensar.
Sinais, toques, palavras e marchas são gestos físicos que exacerbam a compreensão do mundo simbólico. Nisto estamos todos de acordo. Mas a absorção do sentido, da poesia e da mensagem de um símbolo não é fruto da reflexão e do discernimento adequado do indivíduo? Um cego, um mudo, um surdo ou um deficiente físico seria ainda considerado um retardado ou um idiota, incapaz de compreender a metáfora contida na simbólica maçônica?
Encerro minha reflexão com as seguintes perguntas: seria mais válido um obreiro perfeito fisicamente e com um coração incapaz de se fazer maçom ou um portador de necessidades físicas especiais que entenda e pratique de forma plena os ensinamentos da ordem? Beethoven, maçom e completamente surdo no final da vida (mas que ainda compôs a Nona Sinfonia nesta condição) deveria então ser considerado um profano e incapaz por sua mutilação?
Conheço e conheci muitos maçons de coração e mente mutilada e que ainda pensam que viram a Luz.




